“Nós somos o que comemos”- esta é sem dúvida uma frase que já todos ouvimos, mas que, infelizmente, poucos entendem o seu real significado, pois a nutrição é considerada apenas para muito menos do que ela é capaz de nos fornecer.
A cada alimento ingerido, estamos a dar diferentes informações ao nosso organismo, e ele vai responder. Essas respostas podem ser hormonais, metabólicas, fisiológicas, psicológicas, imunitárias e até comportamentais. Para além disso, cada indivíduo possui uma forma única de processar os diferentes nutrientes.
Os alimentos são por isso muito mais do que apenas fornecedores de nutrientes e calorias: a estrutura das proteínas presentes, a qualidade dos ácidos gordos e hidratos de carbono fornecidos, a forma de apresentação das diferentes vitaminas, minerais e fitoquímicos tornam o alimento algo único, que até hoje foi impossível replicar. Através dos alimentos e nutrientes somos capazes de modular inúmeras funções orgânicas, comunicação hormonal e neuronal, ou mesmo o nosso sistema imune.
Um tema pelo que me bato, é a inclusão, na alimentação das crianças, de produtos não nutritivos – e no caso das crianças com necessidades especiais esta situação é ainda mais delicada. Num organismo mais sensível, todos os nutrientes são fundamentais para garantir o melhor funcionamento possível de todos as células e órgãos. Quando em vez de alimentos verdadeiros, repletos de nutrientes, optamos por alimentos com açúcar, corantes, conservantes e outros aditivos, estamos a pedir que este organismo faça um esforço extra.
Quando centramos o nosso raciocínio apenas no aporte calórico, assumimos que o açúcar como uma opção interessante para conseguirmos esse objetivo, mas há um outro lado: para conseguirmos usar o açúcar como fonte energética, vamos necessitar de diferentes vitaminas e minerais, que, como não são fornecidas juntamente com o açúcar, vão reduzir as nossas reservas. Além disso, o aporte de alimentos açucarados prejudica a nossa capacidade imunitária e torna-nos mais susceptíveis a diferentes microorganismos prejudiciais.
Relativamente aos corantes, conservantes e outros aditivos – não servem para nutrir, nem mesmo para aporte energético. Alguns são tratados pelo nosso organismo como um tóxico que tem que ser eliminado, já outros vão perturbar o delicado equilibro ácido-base que garante o adequado funcionamento das nossas células. Será que faz algum sentido continuar a inclui-los na alimentação de uma criança com necessidade especiais?
Já no caso das diferentes patologias crónicas, a nutrição funcional tenta entender as alterações presentes ou condicionadas pela patologia em causa, tentando optimizar o funcionamento do resto do organismo. Ao fornecer os nutrientes necessários para um funcionamento mais adequado, tenta contornar alguns dos desafios condicionados pela patologia e tenta optimizar diferentes alterações presentes. Melhoria do funcionamento intestinal, sistema imunitário, inflamação, capacidade de atenção, comportamento ou mesmo qualidade de sono são algumas das áreas em que a nutrição funcional tem conseguido atuar, melhorando assim a qualidade de vida.
Uma alimentação com alimentos verdadeiros, e adaptada às necessidade individuais de cada criança vai assim melhorar o seu estado e a qualidade de vida.
Texto gentilmente redigido por Dra. Daniela Seabra (Nutricionista 0435N). Nutrição Funcional. Abordagem Nutricional do Autismo. danielaseabra@cristinasales.pt; www.cristinasales.pt